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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

GARRETT


                        José Batista da Silva Leitão de Almeida
                                            Garrett

   Abrindo-se uma exceção para o século XIX, pode-se dizer que é considerado o maior escritor dessa época  (romantismo século XIX), nascido na cidade do porto em Lisboa, 1799, além de romancista, foi político, dramaturgo e poeta, tendo escrito texto de cunho diplomático e histórico, imprimia um cunho pessoal de originalidade e elegancia em seus textos.




Principais obras de Almeida Garrett:
- Camões (1825)
- Dona Branca (1826)
- Adozinda (1828)
- Catão (1828)
- Romanceiro (1843)
- Cancioneiro Geral (1843)
- Frei Luis de Sousa (1844)
- Flores sem Fruto (1844)
- D’o Arco de Santana (1845)
- Folhas Caídas (1853)
    Pessoalmente sugiro que inicie por essas em negrito, caro leitor, caso seja amante da doce e avaçaladora poesia do século XIX. E o faço porque até mesmo sua introdução se faz poética, se faz estrategicamente desinteressada, num charme para atrair o leitor, num espírito de inalguração e de literatura que repensa a própria literatura.
 "Antes que venha o inverno e disperse ao vento essas folhas de poesia que por aí caíram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar...Nao sei se são bons ou maus estes versos; sei que gosto mais deles do que nenhum outro que fizesse...é provavel que o público sinta bem diversamente do autor... Custa-lhe a uma pessoa, como custava ao Tasso, e ainda sem ser Tasso, a queimar os seus versos...consagrei-os ignoto deo. E o deus que os inspirou que os aniquile, se quiser: nao me julgo com direito de o fazer eu... O meu deus desconhecido é realmente aquele misterioso, oculto e nao definido sentimento da alma que a leva às aspirações de uma felicidade ideal...Logo o poeta é louco porque sempre aspira ao impossível...As presentes folhas caídas representam...a posse do Ideal, ...Deixai-o passar, gente do mundo... porque ele vai onde vós nao ides...porque é espírito e vós sois matéria. E vós morrereis, ele não. Ou só morrerá dele aquilo em que se pareceu e se uniu convosco... Mas não triunfeis, porque a morte nao passa do corpo, que é tudo em vós, e nada ou quase nada no poeta."
   Ou como continua a dizer em 'Camões' na primeira edição: "Não sou clássico nem romântico; de mim digo que não tenho seita nem partido em poesia (assim como em coisa nenhuma); e por isso me deixo ir por onde me levam minhas ideias boas ou más, e nem procuro converter as dos outros nem inverter as minhas nas deles: isso é para literatos de outra polpa, amigos de disputa e questões que eu aborreço”
Essa sua obra, Camões, encerra a poesia neoclássica, pretensa a romantismo, abrindo uma nova perspectiva para o romantismo. As obras Flores sem frutos e Folhas Caídas sao obras de poemas confessionais e do ponto de vista temático, podemos perceber a presença muito forte do "amor" da "paixão". O mesmo amor que Camões tenta teorizar em "o amor é fogo que arde sem se ver..."Em Garret já aparece esse sentimento inexplicável no neoclassicismo. Camões, por tudo que significa é a figura maior do nosso classicismo. No romantismo, buscar o classicismo parece sempre um grande jogo de afirmar e negar. Podemos dizer que a figura de Camões foi romantizada antes mesmo de haver entendimento genérico de romantismo. A forma como enfrentava perigos para servir ao rei, o soldado escritor de poemas, entre outros fatores, para os romanticos "liberais", Camões era uma vitrine do Estado, do absolutismo, valores que a pátria política pouco viu. Engraçado perceber que Camões nem sempre era usado para fins literários, como se simbolizasse uma "bandeira da raça", sua figura representava de alguma forma esse espelho, não era visto apenas pela importância de sua obra, mas pelo que ele poderia render como figura representativa do país. Logo, a figura de Camões era mais que humana, era um herói, soldado, uma bandeira hasteada para representar a raça lusitana. Como artista, Camões foi escritor de sua própria epopéia.
A morte de Camões marca o fim da soberania política do país e de alguma maneira, ele tinha desejado isso e assim, morre o patriota com sua pátria.
Mas, estamos falando de Garrett, não vamos nos dispersar; Garrett invoca a saudade, (característica latente lusitana) :
"Esta é a ditosa pátria minha amada,
A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo" - LUSIADAS, Canto III, 21. 
E em Garrett temos:
"Saudade! gosto amargo de infelizes,
Delicioso pungir de acerbo espinho,
Que me estás repassando o íntimo peito
Com dor que os seios d’alma dilacera,
— Mas dor que tem prazeres — Saudade!
Misterioso númen, que aviventas
Corações que estalaram, e gotejam
Não já sangue de vida, mas delgado
Soro de estanques lágrimas — Saudade!
Mavioso nome que tão meigo soas
Nos lusitanos lábios, não sabido
Das orgulhosas bocas dos Sicambros
Destas alheias terras — Oh Saudade!"
   Garrett aborda a temática da saudade, provavelmente porque estava exilado temporariamente na França, e este poema foi escrito na França, no porto de Havre.
"Não sou clássico nem romântico", o que não passava de charme para atrair o público leitor, querendo dar a entender que o poeta era entregue à própria sorte, pois, na verdade, Garrett era muito ideologizado, então diz "de mim digo que não tenho seita nem partido em poesia ". O ato de escrever e questionar o ato de escrever e produzir, ainda é muito atual, mas, para época, Garrett estava sendo muito inovador.
"...e por isso me deixo ir por onde me levam minhas ideias boas ou más..." dando o entendimento de se deixar levar pelas ideias e coração. "...nem procuro converter as dos outros nem inverter as minhas nas deles", aponta para a ideia de ser livre, seguir o próprio rumo sem seguir modelos e normatização dos clássicos. 
Era o novo em relação à época.
 Mais sobre em:
http://pt.scribd.com/doc/136747857/Ex-Certo-Spre-Facio-s-Garrett

http://faroldasletras.no.sapo.pt/folhascaidas.htm

http://docente.ifrn.edu.br/paulomartins/livros-classicos-de-literatura/folhas-caidas-de-almeida-garrett.-pdf/view

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=10&cad=rja&uact=8&ved=0CD0QFjAJ&url=http%3A%2F%2Fcvc.instituto-camoes.pt%2Fconhecer%2Fbiblioteca-digital-camoes%2Fliteratura-1%2F1049-1049%2Ffile.html&ei=ufDAVPKBMoayggS-k4S4BQ&usg=AFQjCNGIBBgvc62fThtgUSGDnVj9WgkUFg&sig2=ZwC2BLqhr55LJV8LvSD7xg

https://archive.org/details/camespoema00alme



Daisy Melo - Unquiet







quinta-feira, 27 de setembro de 2012

5/100 - Pedro o Cru - Antonio Patrício


 
 Antonio Patrício, profundamente tocado pelo simbolismo, conseguiu realizar essa grande obra que é Pedro o Cru. Numa escrita dinâmica, busca revelar toda a característica peculiar da estética dramatúrgica dessa época, no teatro português. As cenas longas e difíceis não se tornam enfadonhas, uma vez que o autor sabe usar com maestria sua capacidade de transformar o poder da palavra em um espetáculo.
 “Diz D. Pedro com o cadáver de Inês nos braços: "cheiras a podre… saboreio o teu cheiro como um corvo…melhor que o das rosas que me deste (…) estou certo que os vermes mesmo se arrastam no teu corpo com doçura…"

por Daisy Melo (Unquiet).

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António Patrício (1878-1930) nasceu no Porto e faleceu em Macau. Frequentou a Escola Naval, em Lisboa, formando-se depois em Medicina no Porto. Após a proclamação da república é nomeado cônsul na Coruña, Espanha. Exerceu depois funcões diplomáticas no Cantão, Manaus, Bremen, Atenas, Istambul; Caracas, Londres, etc. Faleceu a caminho de Pequim quando ia tomar posse como ministro. António Patrício sofreu influências do Simbolismo e do Decadentismo. Notabilizou-se no teatro, em especial nas obras de carácter histórico. Obras poéticas: Oceano (1905), Poesias 81942), Poesias Completas (1980). Teatro: O Fim (1909), Pedro, o Cru (1913), Dinis e Isabel (1919), D. João e a Máscara (1924). Ficção: Serão Inquieto (contos, 1910).
fonte: http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaPortuguesa/Simbolismo/Antonio_Patricio_Pedro_o_Cru.htm

Escritor e diplomata português, natural do Porto. Frequentou a Escola Naval, acabando no entanto por se formar em Medicina, em 1908. Proclamada a República, foi cônsul na Corunha, em Cantão, Manaus, Bremen e outras cidades, vindo a falecer pouco depois de nomeado ministro de Portugal em Pequim.

Como escritor, convergem em António Patrício tendências simbolistas, decadentistas e saudosistas, a que se alia a influência do niilismo de Nietzsche, nomeadamente na recusa de uma finalidade da vida exterior à própria vida. Esta concepção, alheia à metafísica, conjuga-se com um certo panteísmo, na vivência de cada momento perante a omnipresença da morte (a obsessão dos corpos cadavéricos, por exemplo), numa intensa espiritualidade que se manifesta em motivos como a saudade e as contradições e dualismos do homem (finitude e infinitude, carne e espírito, insaciabilidade do donjuanismo), na ânsia nostálgica de absoluto, por exemplo, no amor. Esta tensão trágica é servida por uma escrita de profunda sensibilidade e ritmo poético, numa linguagem de forte carga musical e imagística que o aproxima do simbolismo.

fonte: http://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/portugal/antonio_patricio.html
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PEDRO, O CRU
(Extracto)
PEDRO, com uma doçura imensa.
– É a nossa hora, Inês... Estamos sozinhos. Estás bem assim!? Tu ouves-me dormindo. Eu fico aqui, à tua cabeceira. Não bulas, meu amor, dorme assim queda – como a tua estátua ali, sobre o teu túmulo... Esta é a Casa de Deus. Deus está connosco. Ouves os sinos repicar!?... Toca a noivado. As nossas bodas agora – são eternas. Sinto na minha alma a tua alma – como a água d'uma fonte n'outra fonte, como a luz na luz, e Deus em Deus... Sinto-te tanto, que te perco em mim. Aqui me tens, Inês: sou o teu Pedro. O que ele tem, o que ele tem pr'a te contar!... Eu bem sei que tu sabes... sabes tudo. Os teus ouvidos, na Morte, ouvem melhor. Ouviram o desespero do teu Pedro – uma noite de pedra sobre esta alma – ouviram as suas lágrimas caladas: ouviram toda, toda a sua dor. Eu sei... eu sei... As palavras, por si, dizem bem pouco; mas acordam a alma, meu amor. Se não fosse assim, pr'a quê!?... falar... Fala-se pr'a cair no teu silêncio – no silêncio em que a alma sorri toda... O teu Pedro quer falar: deixa-o dizer... Ouve-o como mesmo adormecida, tu ouvias a fonte do jardim, do jardim das oliveiras meigas, do teu "jardim das Oliveiras", meu amor. (Pausa) É o primeiro serão da eternidade. Lembro a face da terra em que te amei. Vejo os campos de Coimbra ao luzir d'alva... Eu Vou partir pr'a montear... digo-te adeus... As rolas cantam perto – muito triste – no pinhal vizinho, que as entende... O Mondego, ainda a dormir, já corre... O último beijo que me deste em Vida, foi n'uma hora assim: caiam folhas... Os pomares ofereciam-se – doirados... Quando fecho os meus olhos, Vejo-a sempre: dir-se-ia que forra as minhas pálpebras. Foi n'essa hora que eu nasci pr'à dor: foi na hora sagrada em que morreste, que a minha alma nasceu pr'a te adorar. Até à tua morte – eu só te amava. Disse-me Deus, Inês, que me perdoaste. E eu sinto o teu perdão dentro do peito – como se o abrisse pr'ó luar entrar... Quero dizer-te desde essa hora, a minha vida: - ressuscitavas tu quando eu nasci. O nosso amor, amor, ainda era pouco. Só abraçado à morte ele inicia: só a Saudade revela, sabe a Deus. Oh! Os meus dias... os meus longos dias – dias de hiena triste, a sonhar sangue... O teu Pedro quer mostrar-tos pr'a que os beijes: – e serão puros na Saudade, como tu . (Com uma expressão dolorosíssima) Mil Vezes, minha Inês, mil vezes sofri na minha carne a tua morte. Via-o sempre – o espaço era pr'a ele – o teu corpo de amor, tão grande e belo. Deixei de ver o sol: via-o a ele. A brancura de flor da tua pele era a luz da minha solidão. Vivia com o teu corpo na memória – como um lobo n'um fojo com a presa. E então a minha dor – todo o meu gozo – foi reviver n'esta carne o teu martírio. Mas mais, ainda mais que as tuas feridas, me faziam sofrer as tuas mãos... As tuas mãos, amor, via-as pisadas, como asas partidas, que ainda tremem... Eram a coisa mais triste que o sol viu. Os assassinos tinham-nas pisado. O ar, a luz, faziam-nas sofrer. E eu ouvia-os pisar: ouvia... ouvia... Oh! Foi como pisar pássaros mortos...
MARTIM, com uma voz sufocada.
– Afonso! Afonso!.. É como se eu a matasse... Faz-me mal. Pausa. Afonso emudece-o com um gesto.
PEDRO
– Vivi um ano assim, do teu martírio. O teu sangue, amor, era o meu vinho. A tua morte, Inês, foi o meu pão. Fugia ao sol: a luz envenenava-me. Queria estar só, bem só, murado em mim: – cavava no silêncio um fojo escuro pr'a me poder cevar na minha dor. O meu crânio era uma câmara de tortura: – viviam lá um carrasco e os assassinos. E o carrasco era eu, era o teu Pedro. Oirava de pensar... de sentir sangue... P'ra ver se assossegava, ia montear. Corria os montes da Beira doidamente. Entre halalis e vento, galopava. Moços de monte olhavam-me pasmados. Nem seguia os javardos: galopava!... Quanto podia, à toa, sem destino: – a fugir de mim-mesmo entre os meus galgos!... E o sono não vinha, nunca vinha. Nem nas fragoas dos montes nem nos paços. Nos pântanos d'argento, muita vez, apedrejei a minha própria imagem. Fui cúmplice das coisas contra mim. Toda a terra viveu a endoidecer-me. As árvores, na sombra, cochichavam: vinham fechar-me em rondas de conjura: cresciam contra mim; que as amei sempre... N'um silêncio escarninho, caminhavam... Uma noite, ao recolher – pobre de mim! – quis enterrar n'um cedro a minha espada. A lâmina partiu com um tinir frio. (Pausa) E às vezes, nas palmas d'estas mãos, quase sentia a polpa dos teus seios!... Era um lobo o teu Pedro: era uma hiena. Mas um dia, "Alguém" desceu ao fojo: – "Alguém" que era da morte e era da vida; e mais – de além da morte e além da vida... E eu vi a Saudade ao pé de mim. Nunca mais me deixou: Vivo com ela. Fez-se em mim carne e sangue: fez-se Inês. Por isso sabes toda a minha vida. Por isso eu sei a morte como tu. Sou o homem que viveu a vida e a morte: sou o homem-Saudade, o rei-Saudade...
MARTIM
– É o rei-Saudade, Afonso!..
AFONSO
– Eu bem sabia.
PEDRO
– Sou o rei... o rei do maior reino... do reino que me deste, minha Inês... Duas vezes Rainha!... Santa! Santa!... Se estou aqui ao pé de ti – tudo foi bom!... A minha dor, Inês, beijo-a nos olhos!... beijo-a como beijei a tua boca... como – cerrando os olhos na saudade – beijei, beijei, beijei a tua alma... Tudo, tudo foi bom. Tudo eu bendigo. Oiço bater o coração do meu destino. Agora sei, Inês... agora entendo. Morreste moça – pr'a viveres na eternidade sempre moça. Bendito seja sempre o teu martírio! Bendito o lobo em mim... bendita a hiena... (Mais perto d'ela ainda, erguendo as mãos) Bendita tu, Inês, sempre bendita! (Pausa. N'um tom d'intimidade mística) Estás outra vez no reino pequenino. Ele foi-te fiel como o teu Pedro. Cada árvore sabe a tua graça. A tarde cai lembrando o teu sorriso. A terra que tu pisaste alimentou-me: era pão pr'a mim, mais do que pão. Oh! Mas Coimbra foi como uma mãe. Como se o húmus recebesse a tua carne, floriu todo em saudades – campo e montes... Terra de comunhão, carne de Inês. Como eu a Vejo agora – a nossa Coimbra!... É uma Coimbra decantada na saudade... uma Coimbra d'além... E rio e choupos, e olivais e paços, vozes de sinos, voz de rouxinóis: é tudo, tudo feito de reflexos... Só ela vive do meu reino agora. O meu reino lá foi – sumido em névoa. Adeus salas de pedra dos meus paços... meu povo e minha corte... meu chicote de justiceiro... noites de folgança ao som das longas... manhãs de montaria... bons nebris... Sois uma asa ao fundo da memória. Só guardo nos meus olhos o Mondego, tal como o vi depois de tu morreres. Eu não tinha um irmão... Ninguém comigo. Fui ter com ele – o meu amigo de água. Ia como uma lágrima doirada, com folhas secas a boiar, o céu ao fundo, e os choupos nas margens a rezar... Assim ficou n'esta alma para sempre. Lembras-te ? – uma vez, no ardor da sesta, adormeci no teu regaço. Era em agosto. Ele corria aos nossos pés, n'um murmurinho: as suas águas tinham sede como a areia. Pr'a me acordares – era já quase noite – beijaste-me nos olhos, minha Inês. E eu quedei como um monte, em seu burel de mato rude, quando uma nuvem da manhã o beija... Não sabia onde estava. Tu sorrias. Entrevi n'esse instante o nosso reino... Ouve o teu Pedro, Inês, peço-te muito: – havemos de nos lembrar do sol da terra! E do Mondego, Inês, das suas águas. O sol da terra é irmão do teu cabelo. Como eu o amei, como eu amei o teu cabelo!... Muitas vezes, a afogar-me n'ele, sentia luz em mim, era meio-dia, como se Deus mungisse o sol sobre a minha alma... Amava-o tanto como tu o sol. Tu amavas o sol perdidamente. Até fugias dos meus braços, meu amor, para o ver a arraiar por sobre os montes. Ao luzir d'alva, abrias a janela: "Anda ver, meu Pedro, ele não tarda." Eu cingia-te quente, semi-nua. O pomar dormia. Só o silêncio andava a perfumar-se no pomar. Tudo era cor de asas de rouxinóis... Como tu te fazias pequenina!... A manhã vinha vindo além dos montes... Os teus seios arfavam com a luz... E ficavas a olhar os olhos rasos!... Que tinhas tu!?... Vias o céu sofrer?... Era pr'a dar a aurora ao nosso amor!... E nascia... subia: encantamento!... Os teus olhos faziam-se maiores. Oh! O que o sol gozou de viver n'eles!... Mesmo na sombra – eram flores com raios... Os teus olhos olhavam-me na sombra – como as janelas do meu paço olham a noite... Os meus agora vivem como estrelas: dobam a luz dos teus sem descansar (Com opressão e êxtase) Onde estou eu?... Não sei. Estou só contigo. Respiro o teu olhar: é luz de luz... É o ar da minha alma – o teu olhar. E Alcobaça!?... A minha coroa d'oiro!?... Alcobaça onde está!?... as altas naves!?... E os sinos?... a corte!?... os sinos d'oiro a bailar no ar as minhas bodas!?... Ainda os oiço... ainda... mas tão longe... É o princípio e o fim de todo o nosso amor. Os teus seios uniram-se: ei-lo – o mundo!... Oiço no teu silêncio cotovias... O som e a luz casaram-se, fundiram-se: são o ar que eu respiro... o nosso ar... Oh! Asas... asas... dêem-me asas!... É um abismo d'estrelas – este amor... Faz-me medo. É um turbilhão de estrelas... (Com voz de aura, chamando) Inês!... Inês!... Eu tenho medo... Sinto o vento de luz da eternidade...
Um momento, estende os braços como asas; e resvala inerte no lajedo.
fonte: http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaPortuguesa/Simbolismo/Antonio_Patricio_Pedro_o_Cru.htm

domingo, 19 de agosto de 2012

4/100 - HUMUS - Raul Pascoaes


 Raul Brandão,




Raul Brandão, em 1867, Nascia na Foz do Douro (Porto), filho e neto de pescadores, morreria em Lisboa em 1930. Seu romance Humus, trata-se de um romance-monólogo, situado em dois monólogos interiores: um primeiro orador e o seu alter-ego,um filósofo lunático. Com a narração dominada por estes dois pontos de vista, as restantes personagens são remetidas para o plano do grotesco. A obra explora a contradição entre o mundo aparente e o autêntico, onde se descobrem monstruosidades não sonhadas.

escrito durante a primeira Grande Guerra Considerada por muitos críticos como a sua obra-prima esta obra tem originado as mais variadas leituras por parte da crítica literária, que ora a enquadra no Simbolismo, ora lhe enfatiza os elementos do grotesco emocional, considerando-a um raro exemplo do Expressionismo português.

http://cvc.instituto-camoes.pt/conhecer/bases-tematicas/figuras-da-cultura-portuguesa/1440-raul-brandao.html

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Livro 3/100 MARÂNUS - Teixeira de Pascoaes



Teixeira de Pascoaes, pseudónimo de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, (Amarante, 8 de Novembro de 1877[1] — Gatão, 14 de Dezembro de 1952) foi um poeta e escritor português. Nasceu no seio de uma família aristocrática.

A poesia pascoaeseana é densa e de difícil acesso, onde se harmonizam o pagão e o cristão num humanismo metafísico.
A saudade pascoaesiana transcende assim o mero sentimento individual, para assumir uma dimensão ontológica e metafísica. Na mesma medida em que todo o Universo "é a expressão cósmica da saudade" enquanto " infinita lembrança da esperança", a saudade psicológica, individual, assume, enquanto o homem partilha a condição do mundo, uma dimensão metafísica. Enquanto o homem como ser finito e imperfeito aspira à perfeição de ser, a saudade assume uma dimensão ontológica.

A saudade encarada do ponto de vista existencial leva o autor a conceber a natureza como sagrada, uma vez que a saudade do mundo é também saudade de Deus, de um Deus presente nas próprias coisas. É a divindade que se apropria de si mesma na evolução da natureza, pelo que Pascoaes postula a sacralização da mesma natureza. Deus existe antes e independentemente do homem; no entanto a vida, confere-lha o próprio homem.

http://cvc.instituto-camoes.pt/filosofia/1910a.html

(...)

e via o escuro reino mineral,
Num alvorar de etérea sensação,
Fazer-se, enfim, o reino espiritual,
Metamorfose imensa e luminosa.
E viu que o último reino transcendente,
Pela sua estrutura e natureza,
Se casava, profunda e intimamente,
Com a sombra fantástica da Origem.
E a luz do seu olhar, extasiada,
Abrangeu, num momento, a vida eterna.
Sim, às vezes, em hora consagrada,
Para nós se contém a Eternidade.
Também o claro sol, por um instante,
Numa gota de orvalho se resume,
E, nela, é viva imagem radiante
De viva luz, acesa em sete cores.

(...)

Da Serra começava a levantar-se
Um crepúsculo, um fumo de nevoeiro.
E um oiro em pó, suspenso, ia juntar-se
às primeiras estrelas: era a noite.


Marânus, Teixeira de Pascoais

Livro 2/100 Gente Singular - Manuel Teixeira Gomes



Gente Singular – parece querer provocar um sucessivo confronto com uma realidade de forma caricatural, reduz ao cômico quaisquer mancha de idealismo. A ironia, de forma quase comediante, casada com um elástico poder descritivo, atribui a Gente Singular um lugar de relevo nas obras do início do século XX.
O título referi-se a pessoas únicas de sentido raro, singular), Gente Singular não só tem um certo ar histórico, mas humorístico, mostrando a forma de ser único de um povo.

Manuel Teixeira Gomes nasceu em Portimão em 1862, mas estudou em Coimbra, onde deixou o curso de Medicina para se dedicar à vida boémia e literária. Filho de um comerciante abastado, conhece o Mundo a trabalhar na empresa de exportação de frutos secos do pai, desenvolvendo o gosto pelas artes.

Da sua obra literária constam livros como "Cartas sem Moral Nenhuma" (1904), "Agosto Azul" (1904), "Sabrina Freire" (1905), "Desenhos e Anedotas de João de Deus" (1907), "Gente Singular" (1909), "Cartas a Columbano" (1932), "Novelas Eróticas" (1935), "Regressos" (1935) ou "Carnaval Literário" (1938).
Teixeira Gomes foi o sétimo Presidente da República, cargo que exerceu entre 1923 e 1925, ano em que resignou ao cargo e se auto-exilou em Bougie (Argélia francesa), onde morreu em 1941.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

livro 1/100 portugueses séc XX - A cidade e as serras - Eça de Queiroz



 Apreciação do Livro

Século XIX. O positivismo é a corrente política e filosófica, que de forma satírica é abordada no romance. O protagonista, Jacinto é um homem aflito por dois modos de vida e que reencontra o prazer ao voltar-se às origens, na virada do século XIX para o XX. 
A grande virada na vida de Jacinto se dá quando passa uma temporada em paris e após isso, torna-se um ferrenho crítico da forma atrasada em que se encontrava a economia em Portugal na época, passando assim a desprezar a vida urbana em Portugal e dar valor a vida campestre.
Obra póstuma, publicada um ano após a morte de Eça de Queiroz, juntamente com as obras "A Ilustre Casa de Ramires" e "Correspondência de Fradique Mendes", A cidade e as Serras é considerada uma trilogia, cujo ponto comum é a crítica a atmosfera social e urbana de Portugal.
O romance começa com as seguintes palavras: "O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival".
Esse foco narrativo possui um nome técnico, "eu-como-testemunha", e é bastante adequado para obras que visam o olhar crítico, pois o personagem-narrador acompanhará o protagonista em suas aventuras; e, como contará a narrativa ao passar dos tempos depois, pode colocar-se na posição crítica e considerar de forma mais verdadeira o que ocorreu.

Por: Daisy melo


Link para acessar o livro virtual

http://books.google.com.br/books?id=41IbBD35ujAC&pg=PA2&lpg=PA2&dq=A+Cidade+e+As+Serras,+E%C3%A7a+de+Queir%C3%B3s+%281845-1900%29&source=bl&ots=COJB-BzaSZ&sig=kwG4B3rGJ2ecPGk_D6m4ug2tbAE&hl=pt-BR&sa=X&ei=1fwsUIOrB4brygG2s4GoBg&sqi=2&ved=0CEcQ6AEwAA#v=onepage&q=A%20Cidade%20e%20As%20Serras%2C%20E%C3%A7a%20de%20Queir%C3%B3s%20%281845-1900%29&f=false

100 Livros Portugueses do Século XX

100 Livros Portugueses do Século XX

por Fernando Pinto do Amaral (in O Público, 27 Abril 2002)

 - A Cidade e As Serras, Eça de Queirós (1845-1900)


 - Gente Singular, Manuel Teixeira Gomes (1860-1941)
 - Marânus, Teixeira de Pascoaes (1877-1952)
 - Húmus, Raul Brandão (1867-1930)

 - Pedro o Cru, António Patrício (1878-1930)

 - Terras do Demo, Aquilino Ribeiro (1885-1963)

 - Clepsidra, Camilo Pessanha (1867-1926)

 - Ensaios, António Sérgio (1883-1968)

 - Canções, António Botto (1897-1959)
 - Poemas de Deus e do Diabo, José Régio (1901-1969)
 - A Selva, Ferreira de Castro (1898-1974)
 - Charneca em Flor, Florbela Espanca (1894-1930)
 - Gladiadores, Alfredo Cortês (1880-1946)
 - Mensagem, Fernando Pessoa (1888-1935)
 - A Criação do Mundo, Miguel Torga (1907-1995)
 - Sedução, José Marmelo e Silva (1913-1991)
 - Nome de Guerra, Almada-Negreiros (1893-1970)

 - Contos Bárbaros, João de Araújo Correia (1899-1985)

 - Gaibéus, Alves Redol (1911-1969)
 - Solidão/Notas do Punho de Uma Mulher, Irene Lisboa (1892-1958)
 - Apenas Uma Narrativa, António Pedro (1909-1967)

 - O Barão, Branquinho da Fonseca (1905-1974)

 - Historiazinha de Portugal, Adolfo Simões Müller (1909-1989)

 - Noite Aberta Aos Quatro Ventos, Adolfo Casais Monteiro (1908-1972)

 - Mau Tempo No Canal, Vitorino Nemésio (1901-1978)

 - O Caminho da Culpa, Joaquim Paço D'Arcos (1908-1979)
 - O Dia Cinzento, Mário Dionísio (1916-1993)
 - Poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen (n.1919)
 - Poesias, Álvaro de Campos
 - Odes, Ricardo Reis
 - Poemas, Alberto Caeiro
 - Poesias, Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)
 - A Toca do Lobo, Tomás de Figueiredo (1902-1970)

 - Ossadas, Afonso Duarte (1884-1958)

 - As Mãos e os Frutos, Eugénio de Andrade (n.1923)

 - Poesia I, José Gomes Ferreira (1900-1985)
 - Retalhos da Vida de Um Médico, Fernando Namora (1919-1989)
 - A Secreta Viagem, David Mourão-Ferreira (1927-1996)
 - O Fogo e As Cinzas, Manuel da Fonseca (1911-1993)

 - Pelo Sonho É Que Vamos, Sebastião da Gama (1924-1952)

 - A Sibila, Agustina Bessa-Luís (n. 1922)
 - História da Literatura Portuguesa, António José Saraiva (1917-1993)

e Óscar Lopes (n. 1917)

 - Movimento Perpétuo, António Gedeão (1906-1997)
 - Dimensão Encontrada, Natália Correia (1923-1993)
 - Pena Capital, Mário Cesariny (n. 1923)
 - Teatro, Bernardo Santareno (1924-1980)

 - A Origem, Graça Pina de Morais (1929-1992)

 - Léah, José Rodrigues Miguéis (1901-1980)
 - No Reino da Dinamarca, Alexandre O'Neill (1924-1986)
 - A Cidade das Flores, Augusto Abelaira (n. 1926)
F. P. AMARAL - 100 LIVROS PORTUGUESES SEC. XX
          - Bastardos do Sol, Urbano Tavares Rodrigues (n. 1923)
          - Tanta Gente, Mariana..., Maria Judite de Carvalho (1921-1998)
          - A Colher na Boca, Herberto Helder (n. 1933)

          - Felizmente Há Luar!, Luís de Sttau Monteiro (1926-1993)

          - O Palhaço Verde, Matilde Rosa Araújo (n. 1921)

          - Rumor Branco, Almeida Faria (n. 1943)

          - Xerazade e os Outros, Fernanda Botelho (n. 1926)

          - A Torre da Barbela, Ruben A. (1920-1975)

          - Praça da Canção, Manuel Alegre (n. 1936)
          - Estou Vivo e Escrevo Sol, António Ramos Rosa (n. 1924)
          - Teoria da Literatura, Vítor Manuel de Aguiar e Silva (n. 1939)
          - O Delfim, José Cardoso Pires (1925-1998)
          - A Noite e o Riso, Nuno Bragança (1929-1985)

          - As Aves, Gastão Cruz (n.1941)

          - Maina Mendes, Maria Velho da Costa (n. 1938)

          - Peregrinação Interior, António Alçada Baptista (n. 1927)

         
- A Raiz Afectuosa, António Osório (n. 1933)

          - Novas Cartas Portuguesas, Maria I. Barreno (n.1938), Maria T. Horta (n. 1937) 

e Maria V. da Costa
          - Os Sítios Sitiados, Luiza Neto Jorge (1939-1989)
          - Paisagens Timorenses com Vultos, Ruy Cinatti (1915-1986)
          - Toda a Terra, Ruy Belo (1933-1978)

          - O Que Diz Molero, Dinis Machado (n. 1930)

          - Finisterra, Carlos de Oliveira (1921-1981)
          - O Labirinto da Saudade, Eduardo Lourenço (n.1923)

          - Rosa, Minha Irmã Rosa, Alice Vieira (n.1943)

          - Sinais de Fogo, Jorge de Sena (1919-1978)

          - Instrumentos Para a Melancolia, Vasco Graça Moura (n. 1942)
          - Uma Exposição, João M. F. Jorge (n. 1943), Joaquim M. Magalhães (n. 1945), 
Jorge Molder (n. 1947)
          - O Silêncio, Teolinda Gersão (n. 1940)
          - Livro do Desassossego, Fernando Pessoa-Bernardo Soares
          - Memorial do Convento, José Saramago (n.1922)
          - Os Universos da Crítica, Eduardo Prado Coelho (n.1944)
          - Para Sempre, Vergílio Ferreira (1916-1996)

          - Amadeo, Mário Cláudio (n. 1941)

          - Um Falcão no Punho - Diário I, Maria Gabriela Llansol (n. 1931)

          - Adeus, Princesa, Clara Pinto Correia (n.1960)

          - As Moradas 1 & 2, António Franco Alexandre (n. 1944)

          - O Medo, Al Berto (1948-1997)

          - Gente Feliz com Lágrimas, João de Melo (n. 1949)
          - O Pequeno Mundo, Luísa Costa Gomes (n. 1954)
          - A Ilha dos Mortos, Luís Filipe Castro Mendes (n. 1950)

          - A Musa Irregular, Fernando Assis Pacheco (1937-1995)

          - Um Canto na Espessura do Tempo, Nuno Júdice (n. 1949)

          - Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, Mário de Carvalho (n. 1944)

          - Vulcão, Luís Miguel Nava (1957-1995)

          - Guião de Caronte, Pedro Tamen (n. 1934)

          - Geórgicas, Fernando Echevarría (n. 1929)
          - O Vale da Paixão, Lídia Jorge (n. 1946)
          - Cenas Vivas, Fiama Hasse Pais Brandão (n. 1938)
          - Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, António Lobo Antunes (n. 1942)
          in Jornal O PÚBLICO - 'Mil Folhas', 27 de  Abril de 2002