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domingo, 28 de julho de 2013

As Cidades e as Serras


A CIDADE E AS SERRAS


RESUMO

O seguinte texto pretende analisar o romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós através das componentes estruturais da narrativa como enredo, espaço, tempo, personagens e narrador simultaneamente com a problemática crítica apresentada pelo autor. A análise terá, portanto, uma pequena retrospectiva do movimento literário e do autor, seu objetivo se concentrará em apontar os elementos narrativos que demonstram os temas críticos da obra.   Pretende-se, também, relacionar o romance com sua gênese, o conto “Civilização”, ambos escritos por Eça de Queirós.

INTRODUÇÃO

Escritor ilustre da literatura mundial, Eça de Queirós introduziu o Realismo no país português. Suas críticas ferrenhas à sociedade existente e suas descrições, exaustivas de tal modo que cada pincelada do espaço e dos rostos das personagens parece criar um quadro perfeito do mundo, são suas maiores características.
Notável pela sua estilística sarcástica e apontamentos viscerais da verdade, sua escrita impiedosa quer expor a realidade para aqueles incrédulos que não se deixam percebê-la e requer também a reflexão crítica e soluções reais para os problemas apresentados. Nada do escapismo do mundo moderno ou do sentimentalismo estrábico que se afasta da solução:

o que queremos nós com o Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele é mau, por persistir em se educar segundo o passado; queremos fazer a fotografia, ia quase dizer a caricatura do velho mundo burguês, sentimental, devoto, católico, explorador, aristocrático, etc (QUEIRÓS apud BERRINI p. 31).

Sua maturação literária fora fortemente influenciada pela geração de 70, do grupo do cenáculo Vencidos da Vida, por Antero de Quental e pelos filósofos franceses, o Realismo é a forma literária de pensar o país criticamente, uma literatura engajada.
Apesar de toda sua força e indignação em início de carreira, Eça parece sossegar na terceira fase de sua literatura com A Cidade e as Serras, assim como A Ilustre casa de Ramires e As correspondências de Fradique Mendes, o ideal é retornar ao ponto pacífico de Portugal, retirar os problemas sócio-financeiros existentes e desnecessários como por diversas vezes seus personagens demonstram e uma revalorização do campo e do meio rural, como zona intocada pela mácula social e desumana:

No entanto, sem a rigidez doutrinária de outros tempos e refletindo o final do século pelas vias históricas, simbólicas e míticas que configuram a mudança ideológica do autor, sobretudo n’A cidade e as serras e n’A ilustre Casa de Ramires, assim como nos contos e crônicas produzidos nos anos parisienses. (LOUREIRO, 2009, p. 2).

Isso não significa, entretanto, que a carga crítica ou as problemáticas tratadas nos romances sejam diminuídas ou inexistentes. Ao contrário, ao perceber que as reformas políticas de Portugal não foram efetivas para mudar a sociedade drasticamente, Eça procura pela melhor alternativa: apresentar a boa e rara parte portuguesa que se salva, aquela necessária para mantermos a esperança.
O tema do romance póstumo de Queirós é, portanto, válida para demonstrar sua fase:

Certamente, meu Príncipe, uma ilusão! E a mais amarga, porque o homem pensa ter na cidade a base de toda sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. [...] Na cidade findou a sua liberdade moral. [...] Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na cidade se desumanizam! Vê, meu Jacinto! (QUEIRÓS, 1995, p. 50)

A cidade, pela perspectiva realista da fase do autor, é um espaço doentio e deteriorado. Consome-se lentamente e não há saídas para um progresso. Antigamente tida como centro de toda civilização e conhecimento, com o narrador de Eça de Queirós percebemos, entretanto, uma dicotomia campo x cidade que demonstram uma falha na cidade, ela não é mais capaz de solucionar seus problemas sociais.
O que é um paralelo interessante quando comparamos com os ideais utópicos do Cassino Lisbonense, de uma sociedade ativa, pensante, consciente dos problemas entre si, com uma comunicação harmônica entre os centros intelectuais. A Paris que Zé Fernandes descreve no romance é decadente.
Mas o campo tem a capacidade natural de, tal qual natureza que sempre se renova, florescer a capacidade humana. De fazer o homem ainda mais humano e não mais corrompido pelo cientificismo obsoleto e incapaz de ajudar o progresso.
A etimologia do personagem Jacinto na obra demonstra a grande maestria de Eça de Queirós. Como a flor da qual recebeu o nome, Jacinto sai da Paris sufocante e demasiadamente tecnológica, onde não se tinha propósito a não ser procurar futilidades, e migra para o campo, antiga casa de família herdada. Com os ares das serras do lugar, revigora as suas forças e seu entusiasmo pela vida, “florescendo” ali. Saindo do aspecto cavernoso e tornando-se homem viril, do aspecto de homem infeliz, mesmo sendo cercado por desenvolvimento e riquezas, Jacinto renasce nas serras portuguesas, como qual o Cristo ressurreto ou algum outro beatificado.
É a marca do passado evocado para, com esse imaginário, revitalizar o espírito português de autocrítica, “este romance é a mais clara expressão do permanente cepticismo tecnológico, científico, filosófico e teológico de Eça” (SARAIVA; LOPES, 2001, p. 885).


ENREDO

Uma das últimas obras de Eça de Queirós, o romance publicado em 1901 aborda a vida de Jacinto, fidalgo rico, nascido em castelo nos Tormes, região campestre portuguesa, mas morador do 202 nos Campos Elísios parisienses. Cidadão que preza pela tecnologia, conforto e luxo e que acreditava na equação que a “suma felicidade” se encontrava com a união entre “suma ciência” e “suma potência” (QUEIRÓS, 1995, p. 12), acreditava piamente na civilização como único meio de se alcançar o conhecimento e felicidade.
A história do chamado Príncipe da grã-ventura é contada por seu amigo, Zé Fernandes, homem do campo e sem visível interesse pela tecnologia capaz das mínimas e mais supérfluas ações. É simples e procura sempre medir o grau de tédio no qual seu amigo adentra e trazê-lo de volta com distrações e entretenimento.
A reviravolta do livro ocorre quando as ossadas de parentes antigos de Jacinto devem ser enterradas em outro lugar, já que a igreja onde descansavam ficara em ruínas devido a uma grande tempestade. É nessa viagem, desprovido de conforto ou luxo, praticamente dormindo ao relento e em contato direto com a natureza, que Jacinto muda. O deslocamento espacial translada seu espírito de modo que a felicidade é alcançada no campo, não pela favorecida cidade.
Segundo a crítica de Álvaro Lins, estudioso do autor, A cidade e as serras não tem enredo, “assegurando que é um livro de decadência, em que o enredo é inexistente e as personagens ‘de uma extrema miséria de vida’” (TOLOMEI, 2007, p. 5). Mas por que essa ferocidade? Porque, de fato, as ações do romance são mínimas, há maior força de análise, desenrolar do desenvolvimento das personagens e carga crítica na própria questão do espaço representado na obra que nas ações feitas por Zé Fernandes, Jacinto ou qualquer outro.
Mas o livro não é decadente per se, a “extrema miséria de vida” aludida pelo crítico é encontrada principalmente no espaço e ambientes urbanos: o caos, a ineficiência das máquinas embora a tecnologia devesse ser útil, o consumismo e visão estereotipada de uma elite econômica, os temas realistas/naturalistas incômodos do final do século XIX estão presentes em Paris.
Não que a mesmice e ignorância intelectual campesina esteja sendo valorizada por Eça de Queirós. Há a crítica ao conformismo campestre, da religião católica aceita como única verdade, o mito do sebastianismo ainda forte e a relutância em aceitar mudanças. Mas as mudanças são possíveis naquele ambiente, como é comprovada pela conversa entre Silvério e Jacinto na página 109 do romance:

– Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de réis! Digamos dez, porque eu queria dar a todos alguma mobília e alguma roupa.
Então o Silvério teve um brado de terror:
– Mas então, Exmo. Senhor, é uma revolução! (QUEIRÓS, 1995)

            O Príncipe deixa então de ser aquele agraciado com a boa sorte e nesse momento torna-se o príncipe dos pobres, nobre fidalgo disposto a ajudar, modernizar e melhorar a região de Tormes, sua herança. Mesmo com as dificuldades, a ação é mais efetiva no campo, conquanto em Paris, com seus inúmeros contatos, Jacinto tinha dificuldade em atuar ativamente nos mínimos problemas cívicos, tudo encoberto por uma camada de gestos grandiloquentes e jantares, mas nenhuma ação efetiva nos problemas sociais. É essa capacidade de florescer e mudar que valoriza as serras em detrimento à cidade.
            Em Paris, os dois amigos caminhavam nos parques floridos, encontravam-se com a elite intelectual, militar, religiosa da cidade, conheciam tipos “indispensáveis” para uma civilização, debatiam filosofia a cada esquina, porém tudo com um vazio de realidade; debatiam e procuravam novas doutrinas para satisfazer o vazio da essência. Jacinto sucumbe finalmente ao pessimismo e essa era sua única alternativa enquanto vivesse no 202: sua juventude foi arrancada como por máquinas com toda estruturação falha citadina. Não conseguia mais viver sem sofrer e pensar sem sofrer. A chance de viajar para o campo e viver, mesmo a contragosto, sem todo o luxo julgado indispensável abriu seus olhos e permitiu-lhe entender o que era importante de fato e não sua localização (embora essa pudesse afetar).
            É quando se muda para as serras que encontra o prazer no progresso, quando o vê de fato acontecer, é nas serras que encontra paz, renasce e saúde, naquelas serras que se apaixona e casa.
            O romance se alonga por mais algumas páginas, o narrador Zé Fernandes volta à Paris, não sentindo nenhum deslumbramento pela cidade maravilhosa, a civilização de lá parecendo mais decadente. Mal passa alguns dias e se vê estafado com aquela pompa:

Finalmente abalei uma tarde, depois de lançar da minha janela, sobre o boulevard, as minhas despedidas à cidade:
- Pois adeusinho, até nunca mais! Na lama do teu vício e na poeira da tua vaidade, outra vez não me pilhas! O que tens de bom, que é o teu gênio, elegante e claro, lá o receberei na serra pelo correio. Adeusinho! (QUEIRÓS, 1995, p. 137)

            A ideia de que a civilização pode ser levada por correio é brilhante, hilária e com forte teor irônico, Paris, aparentemente, atinge um ponto limítrofe de superficialidade que arrasta para lama toda possibilidade de progresso e melhoria mas a sociedade corrompida pode ser expurgada e a serra conduz novo feitio de progresso.
            É na parte espacial do campo, por exemplo, que encontramos as pessoas dotadas de bondade. Na cidade, cada personagem possuía uma característica da destruição humana, porém no campo, as próprias características físicas mostram o simbolismo da pessoa boa. 
            Após o casamento entre Jacinto e Joaninha, prima do narrador, e depois que Zé Fernandes volta para Tormes, “para o castelo da Grã-Ventura” (QUEIRÓS, 1995, p. 138), vemos a grande finalização do romance: Paris renegada e as serras apontando para uma imagem de salvação.

Constatou-se, nesse percurso através da crítica queirosiana de Álvaro Lins, que ele não mediu palavras para atacar ou elogiar os textos de Eça, daí a tendência impressionista de suas leituras críticas. Em geral, o crítico conseguiu apresentar ao seu leitor o caráter harmônico da obra queirosiana entre o que é humano e o que é artístico, revelando que o “socialismo” de Eça “foi muito mais um sentimento do que uma idéia” (TOLOMEI, 2007, p. 5)

            Então não fica apenas a moral e a sugestão de que o trabalho exaustivo da Ideia traz a civilização e progresso, fica a impressão, para usar das palavras do crítico, que o autor consegue impactar em seu leitor, a associação entre sentimento e ideia para mudar o mundo. É a suavização da visão crítica realista, mas a prova de que perceber a sociedade e melhorá-la é possível.
            Em relação ao enredo, ademais, faz-se necessário mencionar que “A Cidade e as Serras” como livro póstumo não teve a revisão devida que seu autor provavelmente quereria. Assim, a partir da página 89, das 139 páginas da obra, foram amigos de letras de Eça de Queirós que finalizaram o romance do modo como melhor conseguiram.
            Pela crítica genética, lembramos que “A Cidade e as Serras” fora um prolongamento do conto “A Civilização” então o enredo não foi atingido drasticamente, mas as últimas visões críticas das personagens podem ter sofrido alteração, embora tenham sido claras na sua voz.
            A parte não revisada da obra, pela edição da Formar, concentra-se no desenvolvimento de Jacinto meio ao campo, seu casamento com Joaninha, as melhorias tecnológicas no campo e a última viagem de Zé Fernandes para comprovar como este encontra a felicidade no campo e não na cidade, apesar de todo entretenimento.

O TEMPO E O ESPAÇO – UMA RELAÇÃO DO HOMEM E O ESPAÇO

A história passa em Paris, e nas serras de Portugal. A narrativa se passa no século XIX, quando Paris é considerada a capital da Europa e o centro mundial. A despeito disso, Portugal se mantinha como um país agrário e atrasado. Nessa análise do espaço na obra, queremos desfazer a dicotomia de que cidade significa apenas o progresso e a vida no campo apenas um lugar bucólico e sem atrativos duradouros. Queremos mostrar que a face da modernidade cobra seu preço física e psiquicamente no homem e que a vida no campo pode ser também, um lugar onde acontecem mudanças e renovação do indivíduo.
Sobre o tempo psicológico das personagens, Soares (2007 p. 51) nos fala sobre um “tempo interior”, para tanto utilizados recursos como “o monólogo interior”, apresentando o que há de mais íntimo na personagem, podendo ser para expressar dor, espera, angústia... Sobre o espaço, ela ainda continua, como sendo “ambiente, cenário ou localização, o espaço é o conjunto de elementos da paisagem exterior (espaço físico) ou interior (espaço psicológico), onde se situam as ações das personagens”. (Soares, 2007 p. 51-52).
No entendimento de Lins (p.76) citado por Dimas (1985 p. 20), temos a seguinte definição de espaço e ambientação: “... Entenderíamos o conjunto de processos... a provocar na narrativa a noção de um determinado ‘ambiente’. Para aferição do espaço levamos a nossa experiência de mundo; para ajuizar sobre a ambientação”.
Dimas, ainda continua em suas palavras:

O romance realista, na verdade, é exímio em oferecer pistas colaterais, referentes ao espaço, que nos permitem acompanhar a trajetória das personagens de forma a não prestar atenção exclusiva à ação. Com a evolução das formas narrativas, deixou-se de privilegiar a ação o espaço, o tempo ou o personagem para se procurar uma integração mais harmônica das partes constitutivas do romance. (Dimas, 1985 p. 56).

Ainda sobre o tempo psicológico, temos Mendilow (1972 p. 131), que nos diz a respeito: “Para medir-se o tempo, deve-se levar em conta outro padrão, o interior ou psicológico que envolve a estimação do tempo através de valores individuais”. Nesse sentido, podemos afirmar que esse tempo interior de percepção, trata-se das impressões das personagens que depende de valores que variam a todo o momento, ao contrário do tempo exterior que depende apenas de padrões fixos. Se pudéssemos imaginar cada personagem com um relógio interno que medisse o tempo interior, certamente, cada um deles estaria funcionando numa hora especifica. Seria impossível todos estarem numa mesma sincronia, dadas as experiências pessoais de cada um que moverá as impressões particulares de cada um. São as circunstâncias que determinarão o tempo psicológico de cada personagem que vai muito além do cronológico. Pode-se então concluir que cada indivíduo possui consigo sua própria maneira de percepção do espaço e do tempo. “Dentro de cada período este valor varia inversamente, conforme visualizaremos aquela unidade desde o ponto de vista do passado ou do futuro” (Mendilow, 1972 p. 133).
Quando, na obra, Zé Fernandes pergunta ao criado Grilo, por que Jacinto andava tão “murcho”, o outro logo responde: “É fartura!” (Queirós, 2007 p. 80) Ou seja, nem toda a dinâmica da cidade estava por “sufocar” Jacinto que vivia a bufar: “que maçada!”. O tempo para Jacinto, nesses momentos em que se sentia entediado, não passava, ou parecia escorrer lentamente, quase lhe causando sofrimento, já que nada era capaz, em Paris, de fazê-lo sentir-se completo por muito tempo. Quanto a isso temos:

Prestamos mais atenção à passagem do tempo do que o usual, porque estamos mais ansiosos do que usualmente para que ele passe, porque temos pouco mais de que nos ocuparmos ou pouco mais em que possamos fixar a nossa mente. E, já que prestamos tanta atenção ao tempo em um curto período como o faríamos usualmente em um período mais longo, julgamos que o período seja mais longo do que é. (Mac Taggart, 1921, Vol II, P. 277, apud, Mendilow 1972, p. 134).

Diante dessas apreciações teóricas, percebemos que o espaço é muito mais do que uma categoria de análise, mas é uma condição básica e inseparável da trama. Para entendermos a proposta de Eça ao criar As Cidades e as Serras, precisamos contextualizá-la no seu tempo, contextualizando a obra no espaço, pois, não há tempo fora do espaço e vice versa. Contextualizar a obra, no caso aqui referido, trata-se de enxergar a obra na esfera da estrutura da sociedade em que se desenvolve a vida das personagens. É nesse espaço que as personagens passam a imprimir e transformar a sua existência, por meio de seus valores, tornando assim o espaço inseparável das experiências e condição do Ser. Estar num determinado lugar, espaço ou cultura é muito mais do que apenas residir ali, mas se fundir com esse universo, passando esse espaço a ser parte do próprio indivíduo. Na obra, pode-se afirmar que as características tanto da cidade como da vida nas serras são exploradas junto com as experiências das personagens.
Essa relação do homem com o meio em que vive, deve levar em conta a questão do individuo vivendo num espaço e transformando-o, por meio dos seus sentimentos e planos, que o leva a uma ação, num ciclo que não para de se renovar, justamente por causa dessas ações que o indivíduo se sente impelido a produzir no espaço. “... A organização e o sentido do espaço são produtos de translação, da transformação e da experiência sociais”. (SOJA, 1993, p. 101).
Cada indivíduo existe num determinado ambiente onde se reconhece ou não, modificando-o, agindo sobre ele, seja positiva ou negativamente, sendo o lugar e o indivíduo inseparáveis, pois o indivíduo sempre estará fazendo parte de algum espaço enquanto Ser, enquanto existir. Faz parte da existência humana se reconhecer pertencente ou não num determinado espaço. A obra traz muito fortemente essa questão de lugar e para isso Silva (1986, p. 55) nos diz: “... O lugar é algo que sugere alegria ou solidão, nostalgia ou tensão”. Percebemos na obra que os lugares são os mesmos, mas as personagens não permanecem as mesmas, ocorrendo então as várias modificações de visão, de percepção e essência de cada uma delas, ante a realidade.
Essa obra de Eça mostra o desencanto do autor com a falta de avanço social em Portugal, alimentado pelo seu desejo de mudanças e modernidade, como também, já nessa terceira fase em que o autor está novamente fazendo as pazes com Portugal, a obra também mostra a revalorização da vida interiorana.
Eça consegue mostrar os ares de uma época onde nascia uma nova metrópole, que recebia constante influência de toda a Europa, especialmente de Paris, em contraposição com outro espaço que é o das serras, onde aparentemente a influência das inovações tecnológicas e pensamentos modernos ainda não alcançaram tal ambiente. Um lugar intacto, não corrompido de civilização.
Paris era a grande metrópole ditatorial do século XIX, reconhecida por todos os seus avanços que refletiam modernidade e cientificismo, mostrando que em geral havia sob essas modificações, um olhar positivo de mudança diante do futuro, era motivo de alegria viver nesse tempo de tão incríveis mudanças que traria tantos benefícios a toda a humanidade. “Suma ciência mais suma potencia igual à suma felicidade... o incivilizado não suspeita e de que está privado” (Queirós, 2007, p.20) Ainda assim, Jacinto parecia não se sentir completo, mesmo rodeado de todo o fluxo de desenvolvimento técnico e científico que aquele século lhe oferecia. A Ciência só parecia lhe trazer uma pseudo felicidade, muito fugaz que logo se dissipava e o fazia mergulhar num novo mar de tédio. Ainda mais quando percebia gradualmente que nada parecia ser perfeito, funcionar perfeitamente, como uma sutil denúncia de que não era a modernidade e todas as suas comodidades que trariam a completa satisfação. A conquista da ciência estava atrelada à felicidade, mas Jacinto passou a não sentir suficiência em tudo isso. Faltava-lhe algo mais, algo que ele não sabia o quê.
O próprio encanto de Zé Fernandes diante da grande capital é fugaz, mesmo envolvido pela grande importância dada por Jacinto a todas as máquinas novas que possuía e que representavam a modernidade do século, logo Zé Fernandes vai percebendo o alto preço que o progresso cobra, numa rotina que parece sugar todos que a ele se entregam. Seu próprio amigo Jacinto parecia literalmente sugado, perdendo as forças físicas para a modernidade, algo que lhe consumia quase todo o tempo. O ritmo da vida na metrópole parecia afligir Jacinto grandemente, o estresse, diante de um espaço que parecia criado para esmagar a todos com sua opulência e imponência. Os afazeres metropolitanos tomam a todos que vivem nas metrópoles e os consomem quase que compulsoriamente, as pessoas já não possuem tempo para mais nada. Mesmo sendo uma obra do final do século XIX, percebemos que a nossa experiência de realidade não é muito diferente da retratada no espaço metropolitano pelo autor.
Jacinto, mesmo sentindo-se cada dia mais vazio, ainda apega-se a uma Ideia de pertencer a uma elite que existe para fomentar o desenvolvimento, trazer o progresso, ainda percebendo que todos esses esforços o consomem quase que completamente, fazendo-o viver enfadado, estressado e aborrecido. Quanto a isso, Zé Fernandes diz: “... porque sou bom, sempre me entristece o desmoronar de uma crença... o denso formigueiro humano sobre o asfalto... afligia o meu amigo pela brutalidade de sua pressa” (Queirós, 2007, p. 38). Revelando em seu comentário a percepção de que o espaço da metrópole emparedava o ser humano, sujeitando-o a uma vida triste e árdua: “só tijolo, só ferro, só argamassa... tudo seco, tudo rígido... Comendo os muros, as tabuletas...” (Queirós, 2007, p. 42). Zé Fernandes já  havia experimentado o espaço acolhedor das serras e podia com propriedade fazer críticas ferrenhas à dureza mostrada pela cidade dita como “moderna”, que se erguia todos os dias a custo do suor e sofrimento de milhares de pobres, de miseráveis, para manter o luxo de alguns poucos, como o seu próprio amigo Jacinto, fato que percebemos nesse trecho:

E um povo chora de fome dos seus pequeninos – para que os jacintos em janeiro, debiquem, bocejando sobre o prato de saxe, morangos gelados em champagne e avivados de um fio de éter!
_ Eu comi dos teus morangos, Jacinto! Miseráveis tu e eu!
...
_ É horrível, comemos desses morangos... E talvez por uma ilusão!”                                                            (Queirós, 2007, p. 89).

Fica clara a percepção de Zé Fernandes de que são os esforços daquele povo sofrido e humilde que mantém o luxo de poucos como Jacinto, tornando a cidade um espaço opressivo para alguns que vivem para criar o deleite de outros, bem como a cidade, em sua outra face, poderia ser essa cama macia para os poucos que possuíam o poder nas mãos, gerando um espaço cada vez maior para os ricos, em detrimento da marginalização dos pobres. Era a convivência de dois mundos desiguais. Essa desigualdade se faz presente especialmente de modo espacial, onde a cidade se alargava para dar mais espaço aos ricos, pondo à escanteio, na periferia, cada vez mais, o pobre.
Talvez tenham sido essas percepções da realidade para Eça, que o tenham feito nessa sua terceira fase, uma mais amena, com um olhar mais suavizado sobre Portugal, tê-lo feito querer fazer as pazes com seu país novamente, percebendo quão distante estavam os ideais que tanto motivaram em suas conferências, da verdadeira realidade em que a cidade e o povo estavam mergulhados. O caos da desarmonia social.  “Na turba dos humanos é a angustiada luta pelo pão, pelo teto, pelo lume, numa casta agitada por necessidades mais altas, é a amargura das desilusões, o mal da imaginação insatisfeita, (...) – Eis a vida!” (Queirós, 2007, p. 103).
Outro trecho ainda nos afirma:

...Cada manhã (...) impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para dependência; pobre e subalterno, a sua vida é um constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar; (...) Alegria como haverá para esses milhões de seres que tumultuam na arquejante ocupação de desejar – e que, nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, desesperança e derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na cidade se desumanizam! (Queirós, 2007, p. 46).

Cada ação e reação no espaço da cidade constituem outras variadas demandas, que por sua vez, gera outras tantas mais, escravizando todos no tempo e no espaço. Um ritmo de vida que o homem é obrigado a se adaptar para continuar vivendo, ou sobrevivendo; gerando um desgaste não apenas físico, mas psicológico, recaindo assim a critica do autor, sobre a capacidade das metrópoles de esgotar o indivíduo, não oferecendo opções de renovação, mas, antes, sugando-lhe toda a energia. Jacinto vai percebendo isso gradualmente, algo que se reflete no seu físico e logo consome também o seu espírito, sua mente, ficando “doente” a intensidade e ritmo frenético da cidade. “Sofrer é inseparável de viver”. (Queirós, 2007, p. 103). O progresso não é mais o essencial alimento da mente humana. É preciso novos ares, um novo espaço.
A serra, em contrapartida, é o ritmo contrário, onde tudo flui, ainda que com seus percalços, e os percalços são incentivos para melhorar, para que Jacinto use seus conhecimentos adquiridos numa vida cosmopolita, buscando assim um equilíbrio entre o moderno e o campo. O espaço do campo requer mudanças em outro compasso, nada de pressa e até na rudeza do lugar é possível encontrar beleza, o que vai encantando Jacinto gradualmente. É a troca de valores, Jacinto experenciando uma nova vida longe das preocupações da metrópole, das futilidades e sobressaltos da cidade. Encontra uma nova forma de viver que nem sabia existir.
No espaço da cidade, a natureza é fragmentada, dividida em alguns pequenos parques espremidos entre prédios, que parecem passar uma mensagem de que o homem não deve passar muito de seu tempo por lá, mas deve voltar aos seus afazeres. Nas serras, a natureza se encontra íntegra, é motivo para admiração constante, desperta a sensibilidade do espírito.
 O encantamento de Jacinto com o espaço das serras o faz mudar o foco de vida, o faz transformar esse novo ambiente, esse novo espaço em que está inserido. Segundo Soares (2007), a autora afirma que o espaço é fundamental, pois não serve apenas como pano de fundo, mas influencia de forma direta no desenvolvimento do enredo, unindo-se ao tempo. Esse pensamento vai de encontro ao de Zola, convicto de que o ambiente é capaz de “modelar” e “determinar” a condição humana.
O encantamento da personagem Jacinto com o espaço das serras vai além da beleza explícita do lugar, mas tem haver com um reencontro do indivíduo com o próprio ser. Surgem nesse meio tempo novas emoções, a noção de família, tanto ao revitalizar os túmulos dos parentes, quanto ao formar uma nova família, alargar os laços com novas amizades, ajudar a população carente tirando proveito do que a “civilização” lhe dera. Era o homem se conectando ao espaço e vice-versa. Jacinto encontra na vida um novo significado para viver. A serra não tinha tanto valor apenas pela natureza que exprimia, mas pelos sentimentos que fizera desenvolver na personagem, que antes, no espaço anterior da cidade, não existiam.
 A família de Jacinto sai das serras para a cidade e Jacinto fecha o ciclo fazendo o percurso contrário. Era o indivíduo como agente transformador do meio em que habita e como agente de si próprio; e o meio, agente transformador do homem.
Jacinto não abandona totalmente o homem da cidade que vive dentro de si, mas o readapta às novas condições de espaço, transformando-se assim, na figura fundamental de equilíbrio que une tempo e espaço.

O FOCO NARRATIVO NO ROMANCE

Em “A cidade e as serras”, a narração se dá em primeira pessoa do singular, como já anteriormente o dissemos, por Zé Fernandes, natural das serras de Guiães, zona campestre de Portugal. Amigo íntimo e familiar do pretendido protagonista de sua história, Jacinto, portanto narrador personagem, participante e presente em toda a obra.
Esse narrador nos direciona às suas observações e às suas impressões, visto que é por meio de seus olhos que vemos o desenrolar dos fatos, em todos os seus aspectos.
O estilo de narração é de uma linguagem que se pudesse mostrar natural, de acordo com a intelectualidade das personagens que falam, o contexto histórico e o espaço das cenas. Assim sendo, nas vozes de Zé Fernandes e de Jacinto observamos o uso demasiado de estrangeirismos, em inglês <<passeio de mail-coach>>, francês <<Monseigneur est servi!>> e até mesmo latim <<Vanitas Vanitatum>>, mas que não estão ali por acaso, mas para refletir a intelectualidade, erudição e instrução dessas personagens em foco, sobretudo quando estão entre nobres na mansão de Jacinto, em Paris. Em outras ocasiões, seja em conversas íntimas entre si ou em conversa com e caseiro de Tormes (ele dizia sua incelência), vemos que esse estrangeirismo diminui, dando lugar à coloquialidade e à informalidade do falar.
Eça, como traço estilístico próprio de suas obras, traz nesta A cidade as serras também a minuciosa descrição dos cenários e das expressões faciais e corporais das personagens, com o desejo de apreender e expor cada sublime detalhe, como numa pintura realista, a importância de cada pincelada. No tocante à linguagem, ele a usa recheada de figuras de linguagem para assim determinar um estado de espírito ou de fisionomia em que, em determinado momento, se encontra um personagem.
 As mais frequentes figuras de linguagem empregadas são:
A metáfora, que consiste em empregar uma palavra num sentido que não lhe é comum ou próprio, numa relação de semelhança entre dois termos, em junção com
            A hipálage, que tem por objetivo conferir maior expressividade ao discurso:  <<arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e moles>>; <<é um perfume muito agudo e petulante que uma mulher larga ao passar>>; <<pensei na minha aldeia adormecida>>
A comparação: <<meu pobre jacinto, numa aplicação conscienciosa, pendia sobre o Teatrofone tão tristemente como sobre uma sepultura>>
A ironia: <<agora, porém, bendito Deus, na convivência de um tão grande iniciado como Jacinto, eu compreenderia todas as finuras e todos os poderes da civilização>>
A onomatopeia: <<Sei recuperaste Grilo e Civilização! Hurrah!>>, como também o uso do discurso indireto livre e expressões coloquiais que expressam sentimentos como: << uma maçada!>> e <uma seca!>> de jacinto e <ah, caramba!>> de Zé Fernandes.

PERSONAGENS

As personagens de As cidades e as serras são típicas e planas. De um modo geral, duas merecem destaque:
Jacinto, o protagonista do romance, nascido e criado em Paris. O gosto pelas tecnologias lhe é intrínseco, demonstra ser um homem de alto nível de erudição e “civilização”. No início do romance o personagem diz ser impossível ser civilizado fora do ambiente urbano e de seus aparatos tecnológicos. Sua vida segue um roteiro que ousamos dividir em três momentos: o primeiro caracteriza-se pelo horror ao campo que, segundo ele, embrutecia e bestificava o ser humano; o segundo é marcado pela negação da cidade e pela valorização do campo; o terceiro, pela busca do equilíbrio entre a vida simples do campo e algumas conquistas da civilização.
Zé Fernandes não é apenas um narrador que se dedica a contar uma história, é também uma personagem. E não uma qualquer, mas uma que deleita de laços bem estreitos com o protagonista Jacinto. É por meio dele que temos visibilidade e por meio do qual somos apresentados às personagens, seus conflitos e seus pensamentos.
O personagem serrano é dotado de um afeto que parece ultrapassar os limites da amizade, mas sem indicar um comportamento obsessivo ou vulgar, e sim fraternal. Isso se evidencia pela forma de tratamento <<Meu Príncipe>>, pela intimidade que tinha com Jacinto, em adentrar seu quarto, o ver em seus banhos, a pentear-se, a vestir-se; a forma como comungava de seus bens (no 202 de Paris  dormia na cama do avô D. Galeão, lugar de estima e honra), em cear e tratar os funcionários de Jacinto como que seus também etc.
No tocante ao significado de seu nome, Zé Fernandes cuja etimologia da palavra é “fernandéz”, estabelece relação com “fernandézia”, um tipo de orquídea, que são flores sobretudo bem resistentes e que sobrevivem a ambientes diversos. Tanto que pode ser encontrada em todos os continentes, exceto Antártida. Esta relação com o nome do amigo de Jacinto pode explicar e dar suporte à sua fácil adaptação ao campo de singelezas de Tormes e Guiães e à cidade tão civilizada e requintada, cheia de confortos – Paris!
Os personagens do campo: Silvério (administrador da propriedade de Jacinto; Vicência (tia de Zé Fernandes); Joaninha (esposa de Jacinto e prima querida de Zé Fernandes); Jacintinho e Teresinha (filhos de Jacinto); Melchior (o caseiro de Tormes) e outros criados e trabalhadores da propriedade serrana de Jacinto, aparecem como personagens típicas e planas, exemplificando a vida simples e às vezes pobre do campo, ou exaltando o sentimento e bons ares das serras, em supremacia à cidade cinza de civilização, no quesito bem-estar, bem-viver.
 As personagens ligadas à vida de Jacinto em Paris são vistas de forma caricata. O narrador acrescenta-lhes sempre um traço ridículo com a finalidade de criticá-las.            Podemos enxergar como resumo do tipo social representado pelo núcleo parisiense o seguinte trecho:

“Há os Efrains, Os Trèves, os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, só abandonarão ou afrouxarão a exploração das plebes, se uma influência celeste, por milagre novo mais alto que os milagres velhos, lhes converter as almas.” (QUEIRÓS, 1995, p. 52)

O CONTO “CIVILIZAÇÃO”

No conto “Civilização”(1892) que deu origem ao romance A cidade e as serras, temos um confronto entre a cidade e o campo. A dicotomia apresenta-se através de dois grandes momentos da obra: no primeiro Jacinto está na cidade, rodeado de tecnologias e de livros; no segundo momento o protagonista está no campo, desprovido dos requintes aos quais estava acostumado.
Para melhor organização da análise do conto desenvolvemos na seguinte ordem de pensamento: ação, tempo, espaço e foco narrativo. Feita a análise confrontaremos algumas passagens julgadas interessantes que se dão tanto no conto Civilização quanto no romance A Cidade e as serras, desenvolvidos de formas diferentes, bem como outros detalhes que não poderiam passar despercebidos.
Iniciaremos pela ação, que se dá internamente e externamente. Em alguns momentos o narrador recorda fatos: essas lembranças constituem a ação interna.           Já a ação externa detém-se nas coisas materiais: o jasmineiro com vários cômodos, biblioteca, sala de banho, entre outros; o velho solar de Torges; e a estação de trem, todos os atos que movimentam a narrativa.
O tempo é o segundo ponto importante para ser observado, bifurca-se em dois âmbitos: o tempo cronológico (no início do conto Jacinto contava vinte e oito anos, no desenvolvimento aparece-nos com trinta anos, apresenta-se, também, a mudança da estação do ano “depois desse inverno... sucedeu que Jacinto teve a necessidade moral iniludível de partir para o norte...”) e o tempo psicológico (consiste no fato da história ser narrada por alguém que a conhecia e que a tinha vivido, o narrador tem conhecimento de todos os detalhes e fatos).
            Quanto ao espaço provém uma passagem do ambiente da cidade, com todas as suas tecnologias e facilidades, para um ambiente totalmente diferente, o campo, ambiente rústico, desprovido de conforto, no entanto aconchegante e indiscutivelmente belo.  A descrição do espaço feita por Eça é imagética, a riqueza de detalhes dá-nos a sensação de estarmos dentro do cenário.
            No tocante do foco narrativo, vemos que o conto é narrado em 1ª pessoa do singular e no pretérito, trata-se de um narrador personagem, no entanto como é um personagem secundário vemo-lo como testemunha.
O romance “A cidade e as serras” mantém pontos importantes encontrados no conto, tais como o nome do protagonista – Jacinto, com a dicotomia cidade x campo, observa o tédio frente ao excesso de tecnologias e a aversão inicial do protagonista ao campo.   No entanto, em se tratando de modos narrativos, o conto e o romance diferem em sua estrutura, desenvolvimento, ação, tempo, foco narrativo.
Comparando a questão do tempo nos dois modos narrativos vimos que no conto o autor desenvolve o tempo cronológico e o psicológico, já no romance temos apenas o cronológico. É interessante a transmutação do tempo psicológico para o cronológico observado quando as lembranças de José, no conto, acontecem no presente do narrador Zé Fernandes, no romance.
Algumas recordações infelizes lembradas no conto parecem-nos risíveis quando narradas por José, por exemplo, o episódio do fonógrafo que nos é introduzido com leve sarcasmo:

Constantemente sons curtos e secos retiniam no ar morno daquele santuário. Tic, tic, tic! Dlim, dlim, lim! Crac, crac, crac! Trrre, trrre!... Era o meu amigo comunicando. Todos esses fios mergulhavam em forças universais. E elas nem sempre, desgraçadamente, se conservavam domadas e disciplinadas!
(...)
Pois, numa doce noite de S. João, o meu supercivilizado amigo, desejando que umas senhoras parentas de Pinto Porto (as amáveis Gouveias) admirassem o fonógrafo, fez romper do bocarrão do aparelho, que parece uma trompa, a conhecida voz rotunda e oracular:

Quem não admirará os progressos deste século?

Mas, inábil ou brusco, certamente desconcertou alguma mola vital – porque de repente o fonógrafo começa a redizer, sem descontinuação, interminavelmente, com uma sonoridade cada vez mais rotunda, a sentença do conselheiro:

– Quem não admirará os progressos deste século?

Debalde Jacinto, pálido, com os dedos trêmulos, torturava o aparelho.
(Queirós, Civilização) [grifos nossos]

Outro momento trágico, a inundação devido à torneira dessoldada, nos aparece, também, de forma cômica:

Nunca eu, para molhar os dedos, me cheguei àquele lavatório sem terror – escarmentado da tarde amarga de Janeiro em que bruscamente, dessoldada a torneira, o jacto de água a cem graus rebentou, silvando e fumegando, furioso, devastador... Fugimos todos, espavoridos. Um clamor atroou o Jasmineiro. O velho Grilo, escudeiro que fora do Jacinto pai, ficou coberto de empolas na face, nas mãos fiéis.
(Queirós, Civilização) [grifo nosso]

Nos trechos classificados como risíveis percebemos que esse efeito ocorre devido ao narrador que ironiza constantemente as tecnologias presentes no palácio de Jacinto, alude aos problemas para questionar a necessidade dos aparatos que parecem extrair a vitalidade de seu amigo, notado na fala “nunca me recordo sem assombro a sua mesa [...] eu por vezes surpreendi gotas de sangue do meu amigo”.
Há momentos em que ficamos em dúvida se o Jacinto do conto é o mesmo do romance por conta de alguns detalhes divergentes: no conto, Jacinto é herdeiro de uma fortuna de quarenta contos, não sabemos onde nasceu, teve seu berço cuidado pela mãe, decidiu inesperadamente ir para o campo, a Quinta de Torges, o procurador e o caseiro chamam-se, respectivamente, Sousa e Zé Brás; já no romance a fortuna era bem maior, Jacinto nasceu em Paris, sua avó quem espalhou funcho e âmbar em seu berço, muito a contra gosto vai para o campo resolver o problema dos ossos de seus antepassados, a cidadezinha do campo chama-se Tormes, o nome do procurador é Silvério e do caseiro Melchior. Apesar das diferenças citadas preferimos entender que “os Jacintos” são a mesma pessoa devido às inúmeras semelhanças ao longo do texto.

CONCLUSÃO

            O que vimos após análise tanto do conto quanto do romance é que, num de seus últimos textos, Eça de Queirós preza pela capacidade de refletir o mundo problemático à sua volta e agir sobre ele. Diferentemente das primeiras fases iniciais de sua carreira, essa ação, crítica e até o julgamento causado pela sanção social é mais sensível se comparado com sua estreia com o “Primo Basílio”, as personagens não morrem ou vivem na miséria.
            É ainda pior o destino daqueles que se recusam a funcionar bem em sociedade: definhar no decadentismo e superficialidade do mundo. Sem função ou base em que se firmar, a solução não é fácil de se encontrar, mas há um grupo de boas almas e incorruptas pela noção de cidade, e naquele espaço, a civilização, sem as hierarquias políticas, mas em vias de se tornar liberal e justa, numa ajuda comunitária, o progresso ocorre.
É essa região real, mas com característica quase utópica, que devemos observar, não contaminada pelas ideias progressistas e desejando o progresso, o paradoxo é reflexivo e engajado. Os temas principais são solucionados, a desumanização e indiferença da cidade e dos cidadãos encontra margem e resolvem-se no campo, sob a tutela do Príncipe de Tormes. As críticas, mais suaves, sobre os tipos campestres e a beatice ou falta de conhecimento intelectual não são motivos de escárnio, mas sim nova tela para se construir conhecimento útil e necessário para influenciar no mundo.
Saindo do Realismo de tese, dos excessos e das críticas severas, nas serras do romance podemos efetivamente agir e melhorar o espaço e o mundo. O saudosismo também é uma parte importante do processo analítico, é essa saudade quando as coisas funcionavam que precisamos resgatar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DIMAS, Antônio. Espaço e Romance. Ed. 1ª, São Paulo, Ática, 1985. (Série princípios).

LINS, Osman. Lima Barreto e o espaço romanesco. São Paulo: Ática, 1976. (Coleção Ensaios, 20).

LOUREIRO, Roberto. A TRILOGIA DO ÚLTIMO EÇA. Disponível em: <<http://www.pgletras.uerj.br/palimpsesto/num8/dossie/Dossie_RobertoLoureiro.pdf>>. Acesso em 15 abr. 2013.

MAC TAGGART, J.M.E, The Nature of Existence, 1921. Vol. II. Cambridge, USA.

MENDILOW, Adam Abraham. O tempo e o romance. Trad. De Flávio Wolf. Porto Alegre, Globo, 1972.

MOISÉS, Massaund. Presença da Literatura Portuguesa. Direção de Antônio Soares Amora. III Romantismo-Ralismo. 4ª edição, São Paulo, 1974.

PAIVA, José Rodrigues de. (org); BERRINI, Beatriz. O Artesão da Escrita: Revelações da correspondência Queirósiana. Estudos Portugueses, Recife, nº 6, p. 29 – 39, jan – dez 1996.

QUEIRÓS, Eça. As Cidades e as Serras. Martin Claret. São Paulo, 2007.
QUEIRÓS, Eça. Civilização. Disponível em: <<http://cesargiusti.bluehosting.com.br/Alguns/ mestre34.htm>> Acesso em: 09 abr. 2013

QUEIRÓS, Eça. A Cidade e as Serras. Editora e encadernadora Formar LTDA. São Paulo, 1995.

SARAIVA, Antônio José; LOPES, Óscar. História da literatura portuguesa. Porto Editora. Porto – Portugal, 2001.

SILVA, A. Fenomenologia e Geografia. Revista Orientação, nº 07. P. 53-56, 1986.

SOARES, Angélica. Gêneros literários. Ed. 7ª, São Paulo, Ática, 2007.

SOJA, E. Geografias pós-modernas: a reafirmação do espaço na teoria social crítica. Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1993.

TOLOMEI, Cristiane Navarrete. Eça de Queirós e a recepção crítica literária brasileira. Disponível em < http://www.fflch.usp.br/dlcv/revistas/crioula/edicao/01/Artigos/03.pdf>. Acesso em 13 abr. 2013.


terça-feira, 1 de janeiro de 2013

GARRETT


                        José Batista da Silva Leitão de Almeida
                                            Garrett

   Abrindo-se uma exceção para o século XIX, pode-se dizer que é considerado o maior escritor dessa época  (romantismo século XIX), nascido na cidade do porto em Lisboa, 1799, além de romancista, foi político, dramaturgo e poeta, tendo escrito texto de cunho diplomático e histórico, imprimia um cunho pessoal de originalidade e elegancia em seus textos.




Principais obras de Almeida Garrett:
- Camões (1825)
- Dona Branca (1826)
- Adozinda (1828)
- Catão (1828)
- Romanceiro (1843)
- Cancioneiro Geral (1843)
- Frei Luis de Sousa (1844)
- Flores sem Fruto (1844)
- D’o Arco de Santana (1845)
- Folhas Caídas (1853)
    Pessoalmente sugiro que inicie por essas em negrito, caro leitor, caso seja amante da doce e avaçaladora poesia do século XIX. E o faço porque até mesmo sua introdução se faz poética, se faz estrategicamente desinteressada, num charme para atrair o leitor, num espírito de inalguração e de literatura que repensa a própria literatura.
 "Antes que venha o inverno e disperse ao vento essas folhas de poesia que por aí caíram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar...Nao sei se são bons ou maus estes versos; sei que gosto mais deles do que nenhum outro que fizesse...é provavel que o público sinta bem diversamente do autor... Custa-lhe a uma pessoa, como custava ao Tasso, e ainda sem ser Tasso, a queimar os seus versos...consagrei-os ignoto deo. E o deus que os inspirou que os aniquile, se quiser: nao me julgo com direito de o fazer eu... O meu deus desconhecido é realmente aquele misterioso, oculto e nao definido sentimento da alma que a leva às aspirações de uma felicidade ideal...Logo o poeta é louco porque sempre aspira ao impossível...As presentes folhas caídas representam...a posse do Ideal, ...Deixai-o passar, gente do mundo... porque ele vai onde vós nao ides...porque é espírito e vós sois matéria. E vós morrereis, ele não. Ou só morrerá dele aquilo em que se pareceu e se uniu convosco... Mas não triunfeis, porque a morte nao passa do corpo, que é tudo em vós, e nada ou quase nada no poeta."
   Ou como continua a dizer em 'Camões' na primeira edição: "Não sou clássico nem romântico; de mim digo que não tenho seita nem partido em poesia (assim como em coisa nenhuma); e por isso me deixo ir por onde me levam minhas ideias boas ou más, e nem procuro converter as dos outros nem inverter as minhas nas deles: isso é para literatos de outra polpa, amigos de disputa e questões que eu aborreço”
Essa sua obra, Camões, encerra a poesia neoclássica, pretensa a romantismo, abrindo uma nova perspectiva para o romantismo. As obras Flores sem frutos e Folhas Caídas sao obras de poemas confessionais e do ponto de vista temático, podemos perceber a presença muito forte do "amor" da "paixão". O mesmo amor que Camões tenta teorizar em "o amor é fogo que arde sem se ver..."Em Garret já aparece esse sentimento inexplicável no neoclassicismo. Camões, por tudo que significa é a figura maior do nosso classicismo. No romantismo, buscar o classicismo parece sempre um grande jogo de afirmar e negar. Podemos dizer que a figura de Camões foi romantizada antes mesmo de haver entendimento genérico de romantismo. A forma como enfrentava perigos para servir ao rei, o soldado escritor de poemas, entre outros fatores, para os romanticos "liberais", Camões era uma vitrine do Estado, do absolutismo, valores que a pátria política pouco viu. Engraçado perceber que Camões nem sempre era usado para fins literários, como se simbolizasse uma "bandeira da raça", sua figura representava de alguma forma esse espelho, não era visto apenas pela importância de sua obra, mas pelo que ele poderia render como figura representativa do país. Logo, a figura de Camões era mais que humana, era um herói, soldado, uma bandeira hasteada para representar a raça lusitana. Como artista, Camões foi escritor de sua própria epopéia.
A morte de Camões marca o fim da soberania política do país e de alguma maneira, ele tinha desejado isso e assim, morre o patriota com sua pátria.
Mas, estamos falando de Garrett, não vamos nos dispersar; Garrett invoca a saudade, (característica latente lusitana) :
"Esta é a ditosa pátria minha amada,
A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo" - LUSIADAS, Canto III, 21. 
E em Garrett temos:
"Saudade! gosto amargo de infelizes,
Delicioso pungir de acerbo espinho,
Que me estás repassando o íntimo peito
Com dor que os seios d’alma dilacera,
— Mas dor que tem prazeres — Saudade!
Misterioso númen, que aviventas
Corações que estalaram, e gotejam
Não já sangue de vida, mas delgado
Soro de estanques lágrimas — Saudade!
Mavioso nome que tão meigo soas
Nos lusitanos lábios, não sabido
Das orgulhosas bocas dos Sicambros
Destas alheias terras — Oh Saudade!"
   Garrett aborda a temática da saudade, provavelmente porque estava exilado temporariamente na França, e este poema foi escrito na França, no porto de Havre.
"Não sou clássico nem romântico", o que não passava de charme para atrair o público leitor, querendo dar a entender que o poeta era entregue à própria sorte, pois, na verdade, Garrett era muito ideologizado, então diz "de mim digo que não tenho seita nem partido em poesia ". O ato de escrever e questionar o ato de escrever e produzir, ainda é muito atual, mas, para época, Garrett estava sendo muito inovador.
"...e por isso me deixo ir por onde me levam minhas ideias boas ou más..." dando o entendimento de se deixar levar pelas ideias e coração. "...nem procuro converter as dos outros nem inverter as minhas nas deles", aponta para a ideia de ser livre, seguir o próprio rumo sem seguir modelos e normatização dos clássicos. 
Era o novo em relação à época.
 Mais sobre em:
http://pt.scribd.com/doc/136747857/Ex-Certo-Spre-Facio-s-Garrett

http://faroldasletras.no.sapo.pt/folhascaidas.htm

http://docente.ifrn.edu.br/paulomartins/livros-classicos-de-literatura/folhas-caidas-de-almeida-garrett.-pdf/view

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=10&cad=rja&uact=8&ved=0CD0QFjAJ&url=http%3A%2F%2Fcvc.instituto-camoes.pt%2Fconhecer%2Fbiblioteca-digital-camoes%2Fliteratura-1%2F1049-1049%2Ffile.html&ei=ufDAVPKBMoayggS-k4S4BQ&usg=AFQjCNGIBBgvc62fThtgUSGDnVj9WgkUFg&sig2=ZwC2BLqhr55LJV8LvSD7xg

https://archive.org/details/camespoema00alme



Daisy Melo - Unquiet







quinta-feira, 27 de setembro de 2012

5/100 - Pedro o Cru - Antonio Patrício


 
 Antonio Patrício, profundamente tocado pelo simbolismo, conseguiu realizar essa grande obra que é Pedro o Cru. Numa escrita dinâmica, busca revelar toda a característica peculiar da estética dramatúrgica dessa época, no teatro português. As cenas longas e difíceis não se tornam enfadonhas, uma vez que o autor sabe usar com maestria sua capacidade de transformar o poder da palavra em um espetáculo.
 “Diz D. Pedro com o cadáver de Inês nos braços: "cheiras a podre… saboreio o teu cheiro como um corvo…melhor que o das rosas que me deste (…) estou certo que os vermes mesmo se arrastam no teu corpo com doçura…"

por Daisy Melo (Unquiet).

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António Patrício (1878-1930) nasceu no Porto e faleceu em Macau. Frequentou a Escola Naval, em Lisboa, formando-se depois em Medicina no Porto. Após a proclamação da república é nomeado cônsul na Coruña, Espanha. Exerceu depois funcões diplomáticas no Cantão, Manaus, Bremen, Atenas, Istambul; Caracas, Londres, etc. Faleceu a caminho de Pequim quando ia tomar posse como ministro. António Patrício sofreu influências do Simbolismo e do Decadentismo. Notabilizou-se no teatro, em especial nas obras de carácter histórico. Obras poéticas: Oceano (1905), Poesias 81942), Poesias Completas (1980). Teatro: O Fim (1909), Pedro, o Cru (1913), Dinis e Isabel (1919), D. João e a Máscara (1924). Ficção: Serão Inquieto (contos, 1910).
fonte: http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaPortuguesa/Simbolismo/Antonio_Patricio_Pedro_o_Cru.htm

Escritor e diplomata português, natural do Porto. Frequentou a Escola Naval, acabando no entanto por se formar em Medicina, em 1908. Proclamada a República, foi cônsul na Corunha, em Cantão, Manaus, Bremen e outras cidades, vindo a falecer pouco depois de nomeado ministro de Portugal em Pequim.

Como escritor, convergem em António Patrício tendências simbolistas, decadentistas e saudosistas, a que se alia a influência do niilismo de Nietzsche, nomeadamente na recusa de uma finalidade da vida exterior à própria vida. Esta concepção, alheia à metafísica, conjuga-se com um certo panteísmo, na vivência de cada momento perante a omnipresença da morte (a obsessão dos corpos cadavéricos, por exemplo), numa intensa espiritualidade que se manifesta em motivos como a saudade e as contradições e dualismos do homem (finitude e infinitude, carne e espírito, insaciabilidade do donjuanismo), na ânsia nostálgica de absoluto, por exemplo, no amor. Esta tensão trágica é servida por uma escrita de profunda sensibilidade e ritmo poético, numa linguagem de forte carga musical e imagística que o aproxima do simbolismo.

fonte: http://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/portugal/antonio_patricio.html
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PEDRO, O CRU
(Extracto)
PEDRO, com uma doçura imensa.
– É a nossa hora, Inês... Estamos sozinhos. Estás bem assim!? Tu ouves-me dormindo. Eu fico aqui, à tua cabeceira. Não bulas, meu amor, dorme assim queda – como a tua estátua ali, sobre o teu túmulo... Esta é a Casa de Deus. Deus está connosco. Ouves os sinos repicar!?... Toca a noivado. As nossas bodas agora – são eternas. Sinto na minha alma a tua alma – como a água d'uma fonte n'outra fonte, como a luz na luz, e Deus em Deus... Sinto-te tanto, que te perco em mim. Aqui me tens, Inês: sou o teu Pedro. O que ele tem, o que ele tem pr'a te contar!... Eu bem sei que tu sabes... sabes tudo. Os teus ouvidos, na Morte, ouvem melhor. Ouviram o desespero do teu Pedro – uma noite de pedra sobre esta alma – ouviram as suas lágrimas caladas: ouviram toda, toda a sua dor. Eu sei... eu sei... As palavras, por si, dizem bem pouco; mas acordam a alma, meu amor. Se não fosse assim, pr'a quê!?... falar... Fala-se pr'a cair no teu silêncio – no silêncio em que a alma sorri toda... O teu Pedro quer falar: deixa-o dizer... Ouve-o como mesmo adormecida, tu ouvias a fonte do jardim, do jardim das oliveiras meigas, do teu "jardim das Oliveiras", meu amor. (Pausa) É o primeiro serão da eternidade. Lembro a face da terra em que te amei. Vejo os campos de Coimbra ao luzir d'alva... Eu Vou partir pr'a montear... digo-te adeus... As rolas cantam perto – muito triste – no pinhal vizinho, que as entende... O Mondego, ainda a dormir, já corre... O último beijo que me deste em Vida, foi n'uma hora assim: caiam folhas... Os pomares ofereciam-se – doirados... Quando fecho os meus olhos, Vejo-a sempre: dir-se-ia que forra as minhas pálpebras. Foi n'essa hora que eu nasci pr'à dor: foi na hora sagrada em que morreste, que a minha alma nasceu pr'a te adorar. Até à tua morte – eu só te amava. Disse-me Deus, Inês, que me perdoaste. E eu sinto o teu perdão dentro do peito – como se o abrisse pr'ó luar entrar... Quero dizer-te desde essa hora, a minha vida: - ressuscitavas tu quando eu nasci. O nosso amor, amor, ainda era pouco. Só abraçado à morte ele inicia: só a Saudade revela, sabe a Deus. Oh! Os meus dias... os meus longos dias – dias de hiena triste, a sonhar sangue... O teu Pedro quer mostrar-tos pr'a que os beijes: – e serão puros na Saudade, como tu . (Com uma expressão dolorosíssima) Mil Vezes, minha Inês, mil vezes sofri na minha carne a tua morte. Via-o sempre – o espaço era pr'a ele – o teu corpo de amor, tão grande e belo. Deixei de ver o sol: via-o a ele. A brancura de flor da tua pele era a luz da minha solidão. Vivia com o teu corpo na memória – como um lobo n'um fojo com a presa. E então a minha dor – todo o meu gozo – foi reviver n'esta carne o teu martírio. Mas mais, ainda mais que as tuas feridas, me faziam sofrer as tuas mãos... As tuas mãos, amor, via-as pisadas, como asas partidas, que ainda tremem... Eram a coisa mais triste que o sol viu. Os assassinos tinham-nas pisado. O ar, a luz, faziam-nas sofrer. E eu ouvia-os pisar: ouvia... ouvia... Oh! Foi como pisar pássaros mortos...
MARTIM, com uma voz sufocada.
– Afonso! Afonso!.. É como se eu a matasse... Faz-me mal. Pausa. Afonso emudece-o com um gesto.
PEDRO
– Vivi um ano assim, do teu martírio. O teu sangue, amor, era o meu vinho. A tua morte, Inês, foi o meu pão. Fugia ao sol: a luz envenenava-me. Queria estar só, bem só, murado em mim: – cavava no silêncio um fojo escuro pr'a me poder cevar na minha dor. O meu crânio era uma câmara de tortura: – viviam lá um carrasco e os assassinos. E o carrasco era eu, era o teu Pedro. Oirava de pensar... de sentir sangue... P'ra ver se assossegava, ia montear. Corria os montes da Beira doidamente. Entre halalis e vento, galopava. Moços de monte olhavam-me pasmados. Nem seguia os javardos: galopava!... Quanto podia, à toa, sem destino: – a fugir de mim-mesmo entre os meus galgos!... E o sono não vinha, nunca vinha. Nem nas fragoas dos montes nem nos paços. Nos pântanos d'argento, muita vez, apedrejei a minha própria imagem. Fui cúmplice das coisas contra mim. Toda a terra viveu a endoidecer-me. As árvores, na sombra, cochichavam: vinham fechar-me em rondas de conjura: cresciam contra mim; que as amei sempre... N'um silêncio escarninho, caminhavam... Uma noite, ao recolher – pobre de mim! – quis enterrar n'um cedro a minha espada. A lâmina partiu com um tinir frio. (Pausa) E às vezes, nas palmas d'estas mãos, quase sentia a polpa dos teus seios!... Era um lobo o teu Pedro: era uma hiena. Mas um dia, "Alguém" desceu ao fojo: – "Alguém" que era da morte e era da vida; e mais – de além da morte e além da vida... E eu vi a Saudade ao pé de mim. Nunca mais me deixou: Vivo com ela. Fez-se em mim carne e sangue: fez-se Inês. Por isso sabes toda a minha vida. Por isso eu sei a morte como tu. Sou o homem que viveu a vida e a morte: sou o homem-Saudade, o rei-Saudade...
MARTIM
– É o rei-Saudade, Afonso!..
AFONSO
– Eu bem sabia.
PEDRO
– Sou o rei... o rei do maior reino... do reino que me deste, minha Inês... Duas vezes Rainha!... Santa! Santa!... Se estou aqui ao pé de ti – tudo foi bom!... A minha dor, Inês, beijo-a nos olhos!... beijo-a como beijei a tua boca... como – cerrando os olhos na saudade – beijei, beijei, beijei a tua alma... Tudo, tudo foi bom. Tudo eu bendigo. Oiço bater o coração do meu destino. Agora sei, Inês... agora entendo. Morreste moça – pr'a viveres na eternidade sempre moça. Bendito seja sempre o teu martírio! Bendito o lobo em mim... bendita a hiena... (Mais perto d'ela ainda, erguendo as mãos) Bendita tu, Inês, sempre bendita! (Pausa. N'um tom d'intimidade mística) Estás outra vez no reino pequenino. Ele foi-te fiel como o teu Pedro. Cada árvore sabe a tua graça. A tarde cai lembrando o teu sorriso. A terra que tu pisaste alimentou-me: era pão pr'a mim, mais do que pão. Oh! Mas Coimbra foi como uma mãe. Como se o húmus recebesse a tua carne, floriu todo em saudades – campo e montes... Terra de comunhão, carne de Inês. Como eu a Vejo agora – a nossa Coimbra!... É uma Coimbra decantada na saudade... uma Coimbra d'além... E rio e choupos, e olivais e paços, vozes de sinos, voz de rouxinóis: é tudo, tudo feito de reflexos... Só ela vive do meu reino agora. O meu reino lá foi – sumido em névoa. Adeus salas de pedra dos meus paços... meu povo e minha corte... meu chicote de justiceiro... noites de folgança ao som das longas... manhãs de montaria... bons nebris... Sois uma asa ao fundo da memória. Só guardo nos meus olhos o Mondego, tal como o vi depois de tu morreres. Eu não tinha um irmão... Ninguém comigo. Fui ter com ele – o meu amigo de água. Ia como uma lágrima doirada, com folhas secas a boiar, o céu ao fundo, e os choupos nas margens a rezar... Assim ficou n'esta alma para sempre. Lembras-te ? – uma vez, no ardor da sesta, adormeci no teu regaço. Era em agosto. Ele corria aos nossos pés, n'um murmurinho: as suas águas tinham sede como a areia. Pr'a me acordares – era já quase noite – beijaste-me nos olhos, minha Inês. E eu quedei como um monte, em seu burel de mato rude, quando uma nuvem da manhã o beija... Não sabia onde estava. Tu sorrias. Entrevi n'esse instante o nosso reino... Ouve o teu Pedro, Inês, peço-te muito: – havemos de nos lembrar do sol da terra! E do Mondego, Inês, das suas águas. O sol da terra é irmão do teu cabelo. Como eu o amei, como eu amei o teu cabelo!... Muitas vezes, a afogar-me n'ele, sentia luz em mim, era meio-dia, como se Deus mungisse o sol sobre a minha alma... Amava-o tanto como tu o sol. Tu amavas o sol perdidamente. Até fugias dos meus braços, meu amor, para o ver a arraiar por sobre os montes. Ao luzir d'alva, abrias a janela: "Anda ver, meu Pedro, ele não tarda." Eu cingia-te quente, semi-nua. O pomar dormia. Só o silêncio andava a perfumar-se no pomar. Tudo era cor de asas de rouxinóis... Como tu te fazias pequenina!... A manhã vinha vindo além dos montes... Os teus seios arfavam com a luz... E ficavas a olhar os olhos rasos!... Que tinhas tu!?... Vias o céu sofrer?... Era pr'a dar a aurora ao nosso amor!... E nascia... subia: encantamento!... Os teus olhos faziam-se maiores. Oh! O que o sol gozou de viver n'eles!... Mesmo na sombra – eram flores com raios... Os teus olhos olhavam-me na sombra – como as janelas do meu paço olham a noite... Os meus agora vivem como estrelas: dobam a luz dos teus sem descansar (Com opressão e êxtase) Onde estou eu?... Não sei. Estou só contigo. Respiro o teu olhar: é luz de luz... É o ar da minha alma – o teu olhar. E Alcobaça!?... A minha coroa d'oiro!?... Alcobaça onde está!?... as altas naves!?... E os sinos?... a corte!?... os sinos d'oiro a bailar no ar as minhas bodas!?... Ainda os oiço... ainda... mas tão longe... É o princípio e o fim de todo o nosso amor. Os teus seios uniram-se: ei-lo – o mundo!... Oiço no teu silêncio cotovias... O som e a luz casaram-se, fundiram-se: são o ar que eu respiro... o nosso ar... Oh! Asas... asas... dêem-me asas!... É um abismo d'estrelas – este amor... Faz-me medo. É um turbilhão de estrelas... (Com voz de aura, chamando) Inês!... Inês!... Eu tenho medo... Sinto o vento de luz da eternidade...
Um momento, estende os braços como asas; e resvala inerte no lajedo.
fonte: http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaPortuguesa/Simbolismo/Antonio_Patricio_Pedro_o_Cru.htm